Técnica de Constelação humaniza audiências na Justiça

Desde 2015, o juiz estadual Yulli Roter utiliza o método da constelação como ferramenta para a solução de conflitos na 2ª Vara Cível da comarca de União dos Palmares (Alagoas). Principalmente nas audiências de conciliação. Os resultados, segundo o magistrado, são 100% de acordo entre as partes que, por livre escolha, experimentam a técnica criada na Alemanha pelo filósofo e terapeuta Bert Hellinger. Nos próximos dias 2 e 3 de junho, ele e a psicóloga Rose Militão vão ministrar em Fortaleza a oficina “Constelações Sistêmicas no Poder Judiciário”. Uma realização do Centro Sistêmico de Psicologia (Cesp).

E por qual motivo, e em ambiente tão conservador como o Judiciário, um juiz decide experimentar um dos caminhos do autoconhecimento para resolver pendengas judiciais? Por entender, explica em entrevista pelo whatsapp, que a “conciliação normal” trata de forma superficial o conflito entre quem se diz vítima e a outra parte.

Para o juiz, também professor de Direito Constitucional, a narrativa jurídica da “conciliação padrão” dá conta da situação processual. “Do pedido de alimentos ou de uma guarda dos filhos, por exemplo. Mas não traz para a mesa as questões levaram ao conflito. Como uma mágoa, uma raiva, um medo de perder o relacionamento. Com a constelação, essas situações são levadas para a audiência e tratadas com respeito, consideração e empatia”, garante Yulli Roter.

Na sala de audiência, esquadrinha o magistrado, a constelação faz com que seres humanos em situação extrema de conflito entrem em um “estado meditativo diferenciado”. Reflexões sobre o que poderia, de fato, ter potencializado aquela situação de disputa.

Yulli Roter indica que a técnica da constelação revela padrões sistêmicos inconscientes. E que, ao iluminá-los, possibilita um olhar consciente para o padrão de repetição comportamental da pessoa, muitas vezes, de uma vida até ali. Crenças, preconceitos, traumas, imposições e outros fatores que acabam se esgaçando num conflito entre casais, vizinhos, amigos, irmãos, sócios.

O uso ainda restrito da constelação na Justiça em Alagoas é autoconhecimento aplicado à conciliação, mas não é uma terapia familiar. Yulli Roter faz questão de pontuar. A técnica utilizada é uma possibilidade de caminho no âmbito dos conflitos levados à Justiça. “Eu mesmo, por vezes, critico a forma de como a constelação é usada em outros estados. A função do Poder Judiciário não é fazer terapia e, sim, achar a solução de conflitos”, demarca o juiz.

Ninguém é obrigado ou convencido a se submeter à constelação para tentar solucionar uma querela que chegou ao Judiciário. O magistrado alagoano explica que a própria forma de ele conduzir o diálogo sugere a possibilidade do caminho alternativo. “Digo a elas (as partes) que poderão ter uma melhora em suas vidas e, principalmente, solucionar questões internas”, sugere Yulli Roter.

Por enquanto, Roter ainda não cataloga os casos e resultados para transformá-los em dados, pesquisa e proposições ao Tribunal de Justiça de Alagoas. Voz diferente no judiciário alagoano, foi iniciativa pessoal se dedicar à área da constelação. Paralela à formação jurídica, foi estudar constelação familiar, organizacional e sistêmica na Metaforum Brasil (SP) e na Universidade de Caxias do Sul (RS). É um dos caminhos, acredita o juiz, para a humanização da oferta de serviço público nas cortes brasileiros.

 

COMO ACONTECE A CONSTELAÇÃO

1. As constelações acontecem geralmente em grupo.

2. No consultório, em atendimento individual, são aplicados exercícios sistêmicos que facilitem a pessoa (o constelado) entrar em contato com aquilo que não está bem, com sua dor. São movimentos e reflexões a partir de um problema proposto. 

3. No grupo, o constelador conduz os representantes do cliente constelado e orienta que eles se posicionem conforme a imagem interna do sistema familiar dele.

4. Durante a constelação, que dura em média de 40 minutos, o constelado vai tomando consciência das dinâmicas ocultas familiares que o envolviam até aquele momento.

5. Nas constelações, é revelado o que estava oculto ou inconsciente (crenças, traumas, agressões...). Possibilitando à pessoa constelada “insights” que lhe ajudarão a tomar outra atitude, experimentando viver com mais liberdade, alegria e, geralmente, curado daquela situação que o aprisionava.

NO CEARÁ

Na Justiça cearense, segundo a psicóloga Socorro Fagundes, a técnica da constelação familiar é aplicada desde 2010 na Vara

de Execução de Penas Alternativas, coordenada pela juíza Graça Quental.

Antes, de 2007 a 2009, a constelação foi experimentada no Juizado da Mulher em casos de violência doméstica. 

De acordo com Socorro Fagundes, que é mestre em saúde pública, na Vara de Penas Alternativas o trabalho inicial é fazer com que a pessoa se responsabilize pelo crime cometido. Depois reinserção social e na família.

Ainda não há estatística sobre resultados do uso da constelação no judiciário cearense. Está em fase de estruturação um programa de vivências sistêmicas que poderá estender o atendimento para outras varas.

(O Povo)