O degelo do Ártico e as mudanças geopolíticas

Por Igor Macedo de Lucena*

O degelo é um fator de preocupação pela mudanças geográficas do Ártico e pelos danos ambientais que podem ocorrer na fauna, na flora e nas populações da região, mas também se deve levar em consideração que o degelo interfere nas estratégias de expansão do poder das nações nas suas mais diversas vertentes, impactando as relações entres os Estados, principalmente com a Rússia, a maior potência da região.

Segundo o Almirante Kuroyedov (2005) “The relationship between maritime power and economic strength, a staple of American and British global strategies, has been becoming manifest in Russia as well, reflecting on the increasing globalization and the role of Russian Navy”.  Dessa maneira, foca-se no norte da Rússia como a chave para o triunfo econômico e para expansão da força e da influência russa.

Do ponto de vista geoeconômico a região é importante pois o degelo cria um novo local de rotas do transporte marítimo internacional, pela passagem do norte,  reduzindo em até 20 dias o tempo de viagem entre países do oriente e do ocidente. Essa passagem desafogaria locais de grande movimentação que já apresentam gargalos como o Canal do Panamá e o Canal do Suez.

A região tem um forte potencial para a atividade comercial, o Ártico possui zonas de exploração de petróleo e gás, mineração de fosfato, bauxita, ferro, cobre, níquel, ouro e diamantes. A pesca é outra importante fonte de receita dos países do Ártico e hoje a geração de energias renováveis, solar e eólica, se tornam cada vez mais viáveis na região.

Os Estados Unidos e os outros países que não estão em posição de dominância na região, seja pela inércia de investimentos ou pela incapacidade operacional, propõem que o Ártico crie uma nova estrutura governamental ou um novo marco legal, que poderia lhes favorecer. Essa possibilidade é rechaçada principalmente pelo Canadá, que não apenas confirma o atual cenário, mas também reafirma a segurança no Arctic Council e nos acordos internacionais para coordenar e resolver problemas relacionados com as mudanças e oportunidades que surgem devido ao degelo.

A doutrina militar da Rússia na região do Ártico é algo histórico e é considerado um orgulho nacional, além de remeter ao tempo da União Soviética por ser conhecida como a zona fortificada. A frota do Norte possui mais de 42 submarinos na região e cria uma situação de eterna tensão devido as ações da Rússia na Ucrânia e na região da Criméia, que também são consideradas estratégicas e históricas para os russos. Dessa maneira a militarização da Rússia na região do Ártico força os países da NATO a também ampliarem seus projetos militares, o que apresenta uma clara ligação entre os acontecimentos geopolíticos de outras regiões com o Ártico, confirmando que não se trata mais de uma região isolada.

Nos últimos anos os acordos bilaterais entre Rússia e China vem se intensificando em relação ao Ártico. O comércio entre os dois países também cresceu, contudo devido as sanções económicas impetradas pelos EUA e UE à Rússia esses acordos vem perdendo força. A China tem interesses comuns com a Rússia no Ártico, mas não tem interesse em realizar uma aliança formal anti-Estados Unidos ou anti-União Européia, correndo o risco de cair também em sanções ou prejudicar seus interesses em outros projetos como a iniciativa “Belt and Road” ou a disputa comercial com os americanos.  

Os russos precisam e gostariam de ter mais investimentos e empréstimos chineses para seus projetos no Ártico, essa necessidade é vista pela China como uma oportunidade de consolidar seus interesses econômicos, mais precisamente energéticos na região, além de ser uma abertura para a expansão geopolítica da China, gerando a oportunidade de expandir essa parceria com outros países. 

O Ártico ainda possui algumas regiões que passam por disputas territoriais como por exemplo a ilha Hans, que é reivindicada pelo Canadá e pela Dinamarca, entretanto disputas por rotas e outras extensões territoriais na região tendem a ser resolvidas de maneira diplomática. Até mesmo a Rússia e os Estados Unidos assinaram acordos com o objetivo de impedir que disputas territoriais se tornem disputas militares. Os recentes acontecimentos na Criméia deixam os aliados dos Estados Unidos receosos sobre as futuras intensões russas na região, mesmo com a assinatura de acordos internacionais.

O Ártico é sem dúvida uma região de forte importância tanto geopolítica quanto na geoeconômica, de modo que as potências mundiais e os países da região tratam como prioridades suas políticas e parcerias para a área.

Não se pode deixar de descartar o risco de conflitos armados na região devido aos interesses divergentes dos países membros do Ártico. Ainda assim trata-se de um baixo risco, pois territórios soberanos e povoados de nações como Estados Unidos, Canadá e Rússia, potências que não se engajam diretamente em confrontos desde a Segunda Guerra Mundial. Atualmente esses países participam de operações militares apenas de maneira indireta como nos conflitos do Iraque e da Síria. 

Tanto os Estados Unidos e seus aliados como a Rússia trabalham com a ideia de que os acordos internacionais e a diplomacia são o caminho para resolver as disputas internacionais, principalmente territoriais, entretanto incentivam o fortalecimento das forças armadas na região, aumentando a demonstração da sua força militar.


*Igor Macedo de Lucena

Economista e Empresário

Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden

Research Economist at Brazil Africa Institute

Fellow Associate of the Chatham House - the Royal Institute of International Affairs

Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales

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