O trade turístico e sua cota no desastre

Por Allan Aguiar*

Segundo a Wikipédia, Trade Turístico é o conjunto de equipamentos da superestrutura constituintes do Destino turístico. São os meios de hospedagem, bares, centros de convenções e feiras de negócios, agências de viagens e turismo, etc. etc. Portanto, o Trade Turístico é o setor privado que compõe os elos da extensa cadeia produtiva do segmento do turismo. 

O setor público, óbvio, não orbita nessa faixa empresarial, mas atua majoritariamente na infraestruturação, promoção, ordenamento, regulação, em importantes serviços e fiscalização da atividade. Quando muito, o poder público controla centros de eventos, teleféricos e outros equipamentos importantes para atividade, mas que não possuem viabilidade econômica ao capital privado. 

Quando um Destino Turístico, como o Ceará, entra em grave declínio, representado pela queda e desqualificação dos fluxos turísticos, perda de competitividade, deterioração da sua imagem, dos preços e tarifas e das taxas de retorno dos investimentos efetivados, os primeiros a serem responsabilizado são as estruturas dos governos estaduais e municipais. Raramente assiste-se qualquer entidade do trade assumir parcela da responsabilidade pelo colapso. Quase sempre a “conta” é debitada exclusivamente dos agentes públicos. 

No caso do Ceará algumas das principais entidades são controladas pelos mesmos atores que se revezam, há pelo menos 20 ou 30 anos, e possuem grande influência na definição da agenda de trabalho que o Estado e Municípios cumprem na promoção da atividade, servindo até de braço operacional e barriga jurídica de aluguel do Governo para viabilizar projetos estapafúrdios, como o atual esqueleto de Aquário, dentro de arranjos jurídicos esquisitos e  que despertaram a atenção do Ministério Público em Ação Civil que tenta punir os pais da milionária aberração.

Não é raro representantes do Trade nativo serem designados para ocupar elevadas posições nos governos municipais e estadual. Também conhecido como “trade de três”, como uma alusão a apenas três entidades que dominam a representação do extenso setor privado, seus empresários-políticos/políticos-empresários com vínculos partidários ou a grupos de poder e que atuam ou atuaram no segmento, estão quase sempre ocupando cargos públicos.

Desta forma, seria plausível admitir que essa simbiose entre ocupantes do trade e do governo fosse capaz de implementar uma agenda mínima de resgate da economia do Ceará pelo viés do Turismo. Mas acontece exatamente o oposto, confirmando o quadro de anorexia do setor, falta de foco e articulação destes que assistem, docilmente, a retórica dos eleitos quanto a importância do Turismo sem que tal importância esteja explicitada nos orçamentos públicos correntes e na profissionalização da gestão do Setor. A politização do Turismo e a disputa desses grupos por cargos no Governo ajuda a explicar a baixa performance da gestão do setor e os pífios resultados revelados pelos agregados turísticos. 

Por outro lado, o chamado Trade não nativo, formado por empresários não cearenses, nacionais e internacionais, e que se constituem também como importantes hoteleiros no Estado, mantem-se distantes dessa dinâmica e buscam tocar seus negócios sem qualquer apetite em participar dessas entidades, assumindo, na prática, posições de meros espectadores. Nota-se em alguns dos principais Resorts de capital estrangeiro, que formam a maior e mais qualificada oferta hoteleira do Estado, que essas entidades são pouco enxergadas como alavancas e são tratadas dentro de uma postura meramente diplomática. O que esse Trade não nativo implora, sem sucesso, é tão somente uma gestão pública profissional, cumprimento de acordos, regras claras e válidas até o fim do jogo, efetividade e incorporação das melhores práticas adotadas em Destinos Turísticos consagrados. 

Assim, há que se ter coragem para atribuir a essas entidades associativas parcela expressiva da responsabilidade pela estagnação instalada no turismo cearense, o qual revela números e problemas claramente sinalizadores de pane no sistema turístico da Terra da Luz. Afinal, como diz o velho provérbio português, “quem come do meu pirão, leva do meu cinturão”.                                                            

*Allan Aguiar é ex-secretário de Turismo do Ceará.


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