Sobre taxas de juros negativas

Após a decisão do Banco Nacional Suíço e do Banco Central do Japão de deixar suas taxas de juros negativas em -0,75% e -0,1% respectivamente, o alívio já é sentido no mundo bancário suíço e japonês. É verdade que as taxas de juros negativas a serem pagas pelos bancos desses países continuam sendo um grande fardo. O anúncio das autoridades monetárias de ajustar suas bases de cálculo e torná-las mais flexíveis teve a aprovação daqueles fortemente envolvidos no mercado financeiro e, portanto, dos bancos mais atingidos. 

Por um longo tempo as taxas de juros negativas foram vistas como um fenômeno temporário que, mais cedo ou mais tarde, daria lugar a uma normalização delas, entretanto os economistas concluiriam que a situação atual poderia perdurar nos próximos anos. Acima de tudo, a reviravolta da política monetária do Federal Reserve dos EUA, que cortou as principais taxas de juros em um período sem dificuldades econômicas, é um entrave contra a normalização das taxas esperada na Europa, incluindo a Suíça, e no Japão.

O banco central japonês parece estar caminhando para uma flexibilização adicional de sua política monetária, já extremamente flexível e abaixo de zero. Se os riscos para o crescimento global se intensificarem, o BOJ está disposto a agir, disse o chefe do banco central, Haruhiko Kuroda, na última quinta-feira após a reunião sobre a taxa de juros japonesa. A ideia básica é que em cenários de crise nos quais o consumo se retrai, a melhor maneira de forçar as empresas e pessoas a consumir é tornar custoso “poupar”, por isso taxas de juros negativas em tese impulsionam o consumo, pois ao poupar seus recursos financeiros nos bancos, o valor depositado hoje seria menor no futuro, então o lógico seria consumir no presente.

Essas são perspectivas bastante perturbadoras. Quanto mais tempo o ambiente da taxas de juros negativa perdurar, mais rapidamente os bancos precisam considerar se seus modelos de negócios ainda são sustentáveis. Como emprestar dinheiro no longo prazo com taxas de juros negativas? Como se consegue captar no mercado poupanças se o banco cobra do cliente para manter seu dinheiro na conta?  Se o período de taxas de juros negativas continuar por alguns anos, os bancos devem temer perder seu papel como o principal agente intermediário de empréstimos. Ainda mais porque a digitalização está colocando no mercado novos provedores de recursos que não são bancários como as fintechs e as cooperativas.

O que fazer? Os bancos envolvidos no negócio de empréstimos não poderão adaptar seu modelo de negócios às novas condições. Por exemplo, com um empréstimo pessoal ou hipotecário, há pouco a ganhar, e uma mudança para serviços mais intensivos como consultorias e planejamentos financeiros será uma opção, por exemplo, para empacotar o principal produto de crédito com uma gama de serviços adicionais que superam os concorrentes e agrega valor aos cliente.

Além do setor bancário que é fortemente impactado pelas taxas de juros negativas, outro importante fator afetado é a teoria econômica. Nos últimos 100 anos, tanto do ponto de vista do keynesianismo como do neoliberalismo as taxas de juros básicas eram sempre calculadas como valores positivos, um custo pelo tempo do dinheiro emprestado. Ao longo do tempo uma gama de teorias econômicas foi sustentada baseada em taxas básicas de juros positivas, incluindo representações gráficas e modelos econométricos. A pergunta agora é como apresentar ou explicar os efeitos dentro da economia de um país sem que haja uma teoria básica com taxas de juros negativos? Esse é um dos principais problemas que os teóricos da economia se debruçarão nos próximos anos e talvez seja um caso de prêmio Nobel de economia no futuro. 


Igor Macedo de Lucena

Economista e Empresário

Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden

Research Economist at Brazil Africa Institute

Fellow Associate of the Chatham House - the Royal Institute of International Affairs

Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales


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