Uma nova gigante da Europa

Na última semana foi anunciada uma grande consolidação no mercado automobilístico mundial. A italo-americana FCA Automobiles e a francesa Groupe PSA anunciaram uma fusão de suas companhias para criar a quarta maior montadora do mundo, com um valor de mercado de 40 bilhões de euros. A nova companhia terá em seu porfólio de marcas: Fiat, Abarath, Alfa Romeo, Lancia, Maserati, Iveco, Autobianchi, Ferrari, Chrysler, Dodge, Jeep, Ram, Peugeot, Citroën, Opel, Vauxhall, e Faurecia.

Os administradores do conglomerado informaram que cada grupo terá a participação de 50% no capital social da nova empresa que já nasce com vendas anuais de veículos na casa de 8,7 milhões de unidades no mundo, gera uma receita bruta 170 bilhões de euros e lucros operacionais de mais de 11 bilhões de euros. Dentre várias das sinergias de negócios e aumento do marketshare global, a expectativa é gerar uma economia e outros benefícios nas operações que podem chegar a 3,7 bilhões por ano sem o fechamento de fábricas ou demissões.

Do ponto de vista geoeconómico essa fusão foi muito bem vista pelos governos europeus, pois reforça a política de “Campeões Europeus” dentro do cenário internacional de disputas por mercados consumidores e ampliação do poder de suas empresas nacionais fora das fronteiras europeias. Nesta nova configuração os europeus ocupam a 2ª colocação com o grupo Volkswagen, com 10,3 milhões de veículos vendidos por ano, e agora a 4ª colocação com  FCA-PSA, que totalizam 8,7 milhões. 

A diferença para os outros dois não é tão grande assim, pois o primeiro lugar é do grupo japonês Toyota, com 10,4 milhões de unidades vendidas, e a terceira posição pertence a joint venture franco-japonesa Renault-Nissan, com 9,9 milhões de unidades.

Do ponto de vista de escala de produção os europeus e os japonesas demonstram uma grande capacidade de consolidação de suas marcas ao redor do planeta e deixam para trás os norte-americanos, em um movimento que já vem se intensificando desde o final da década de 1990.

Carlos Tavares, o atual diretor executivo da PSA, se tornará diretor executivo da nova empresa, enquanto o presidente da Fiat, John Elkann, se tornará seu presidente. 

O acordo ocorreu meses depois que uma tentativa semelhante de fusão entre a FCA e a rival francesa da PSA, a Renault, se desfez, com as empresas culpando a intervenção do governo francês, o maior acionista da Renault. Entretanto há dúvidas sobre essa situação, pois o Estado francês também possui 12% do PSA quando precisou injetar recursos para a manutenção da montadora na crise de 2014.

Nos Estados Unidos a expectativa é que marcas europeias como a Peugeot possam voltar a entrar em um mercado que era bastante competitivo. Agora com o peso dessa nova empresa o grupo será capaz de reentrar no país, com preços baixos e produtos de alta qualidade, algo que é bastante exigido pelo consumidor americano e que os japoneses foram os primeiros a entender. 

Para o Brasil os impactos não devem ser imediatos, contudo há a perspectiva que a fusão altere a composição das fábricas montadoras já instaladas no país, bem como a rede de concessionários que poderão operar com mais marcas e ampliar a oferta de veículos no país. Esses movimentos devem ocorrer juntamente com a retomada do crescimento da economia nacional, algo que já se mostra como efetivo no Sudeste e no Centro-Oeste do Brasil, dado os últimos indicadores do governo federal. A perspectiva é que esses efeitos positivos sejam sentidos no Nordeste no final de 2020.

Outro importante aspecto é que as companhias europeias já estavam bastante evoluídas dentro do processo de transformação de seu line-up de carros em modelos elétricos, o que deverá ser incentivado a nível global, colocando mais pressão em cima de empresas como a americana Tesla ou a chinesa BYD, que não possuem muita tradição no setor automotivo porém produzem apenas carros elétricos em uma escala bem menor.

A consolidação do setor automobilístico é um fenômeno mundial e vem ocorrendo com cada vez mais intensidade o que gera carros melhores e mais baratos para os consumidores, entretanto é importante que os órgãos de controle econômico dos Estados estudem sempre essas fusões com muita cautela para que não caiamos em possíveis oligopólios em um futuro próximo.


Igor Macedo de Lucena

Economista e Empresário

Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden

Research Economist at Brazil Africa Institute

Fellow Associate of the Chatham House - the Royal Institute of International Affairs

Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationale


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