Xeque-mate nos investidores

Imagine que você é um empreendedor e possui uma ideia de negócio que em alguma medida tem a capacidade de realizar uma mudança fundamental em algum mercado já consolidado, como por exemplo o mercado de transporte de passageiros. Se você viver em uma nação desenvolvida, onde o mercado de capitais, em especial de venture capital, for suficientemente avançado e sua ideia florescer em um período de forte liquidez no mercado financeiro é provável que você possa obter algum sucesso.

Sua ideia deu certo? Que bom! Imagine que você conseguiu os primeiros dez milhões de dólares e transforma sua ideia em uma empresa que até então não possui concorrentes e nos próximos cinco anos você conseguiu levá-la para os quatro cantos do planeta. 

Até então parece que tudo está correndo sem problemas, principalmente para os consumidores que conseguem se deslocar rapidamente através de um aplicativo e com preços muitas vezes menos da metade dos táxis. Contudo como explicar que uma empresa revolucionária e líder de mercado em uma escala global não consegue entregar nenhum dólar de lucro para seus investidores? 

Pensando bem, ao se debruçar sobre os balanços financeiro da empresa, ela se mostra viva apenas por acumular a cada dia mais e mais investidores institucionais com a expectativa, que devido ao alto número de usuários e um ritmo frenético de crescimento de sua base de clientes, vai chegar um dia que enfim deverá distribuir dividendo aos seus acionistas. 

Essa é a principal resposta do porque que os investidores continuam aportando recursos na Uber e um resumo da história que nos últimos anos vem sendo contada para ela e outras como We Work, AirBnb, Lyft e várias que estão dentro desse mercado da “economia compartilhada”. O que me chama a atenção desse modelo de negócio e modelo econômico de empreendimento é que não existe uma teoria que explique o que esses empreendedores tentam vender, principalmente aos fundos de investimentos e agora aos investidores na bolsa de valores. 

Se analisarmos a base do sistema capitalista de produção em sua versão mais simples defendidas ainda por Adam Smith e David Ricardo no século XVI existem os chamados fatores de produção onde toda e qualquer firma deve possuir para alocar seu real preço no mercado e consequentemente obter lucro em cima dele. 

O primeiro é a Terra ou qualquer recurso natural como água, ar, solo, minerais, flora, fauna e clima, usados na criação de produtos. Geralmente o pagamento dado a um proprietário de terra é aluguel sobre um imóvel bem localizado nos tempos modernos, por exemplo. O segundo é o trabalho ou o esforço humano usado na produção, que também inclui conhecimentos técnicos específicos. O pagamento pelo trabalho de outra pessoa e toda a renda recebida do próprio trabalho são salários ou técnicas que ficam intimamente ligadas ao empreendedor, gerando valor aquele produto. O último é o estoque de capital ou bens fabricados pelo homem que são utilizados na produção de outros bens ou o próprio dinheiro que será alocado pelo capitalista na criação de bens que se transformam em mais dinheiro.

Pode parecer muito básica e simplista essa explanação de Smith e Ricardo, mas ela nos dá uma pista do que pode estar fundamentalmente errado com o Uber e outras empresas dessa nova “economia compartilhada”. A base do lucro dentro da economia capitalista é reter esses três elementos na posse do empreendedor e a partir da sua combinação específica gerar produtos que tenham valor e preços de mercado. Essa afirmação está longe de parecer o modelo de negócio do Uber por alguns motivos.

O primeiro é o fato de ser uma empresa de transporte sem um único veículo e nenhum motorista como funcionário, algo que é visto como uma revolução pelos entusiastas da tecnologia, mas do ponto de vista econômico se apresenta como uma falha básica teórica, pois ao não possuir propriedade ou lealdade dos motoristas e seus automóveis, não é capaz de reter talentos ou garantir estratégias que seu modelo de negócios seja padrão ao redor do mundo, além de ser fácil de ser copiado. 

O segundo é que o capital utilizado para toda essa jornada incorre em um “moral hazard” ao ser um capital de risco de terceiros e ser administrado pelo fundador da ideia, as medidas entre risco e retorno a serem tomadas pelo gestor passam longe de métricas conservadoras, pois sempre haverá um novo investidor para cobrir as falhas de decisões.

Esse tipo de empreendimento se mostra não apenas como disruptivo para o mercado, mas ele distorce a lógica do empreendimento comercial e cria companhias que são benéficas para o usuário final e maléfica para os investidores. A outra ponta dessa história é o seu criador que até então não sabíamos onde iria parar, mas agora fica bem claro. 

Segundo a Bloomberg, o co-fundador da Uber Inc., Travis Kalanick, vendeu cerca de USD 578 milhões em ações da companhia durante os últimos três dias desta semana, estendendo uma série de transações desde que o “bloqueio legal como fundador” terminou em 6 de novembro. A expectativa é que mais vendas ocorram até o final do ano, com um pedido de 11 de novembro, sinalizando que Kalanick pode liquidar toda a sua participação na empresa, que foi fundada por ele e depois de dez anos não entregou um dia de lucro.

Com sua fortuna avaliada em USD 3 bilhões segundo a Forbes, fica aqui a questão: estamos vivenciando um novo modelo de capitalismo onde bilionários são forjados por meio de empresas deficitárias a custa de dinheiro dos investidores? É viável uma economia aplicada a todas as novas empresas “disruptivas” sobrevier dessa maneira?

Muitas pessoas alegam que a Amazon, a Apple ou a Microsoft passaram por algo parecido e demoraram até dar lucro, mas fundamentalmente não lembro de Jeff Bezos, Steve Jobs ou Bill Gates colocarem em seus prospectos de IPO sobre a impossibilidade de lucros futuros. Todos eles criaram negócios onde são donos de suas ideias e produtos, os quais são difíceis de copiar com maestria e até hoje, décadas depois são seus principais acionistas e continuam a acreditar nas suas ideias.

Fundos como o Vision Fund da Softbank estão aprendendo de uma forma dura que a “economia compartilhada” ou a “revolução das empresas que fazem tudo sem ter nada” está cada dia mais longe de ver o básico para toda e qualquer empresa, o lucro.


Igor Macedo de Lucena

Economista e Empresário

Professor do curso de Ciências Econômicas da UniFanor Wyden

Research Economist at Brazil Africa Institute

Fellow Associate of the Chatham House - the Royal Institute of International Affairs

Membre Associé du IFRI – Institut Français des Relations Internationales



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